
02/05/2008
Especialistas
em máfias, Alessandra Dino explica como as organizações se infiltram no Estado
e na política italianos
Wálter Fanganiello Maierovitch
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No segundo andar do Palácio da Justiça, em
Palermo, fica a sala magna que leva os nomes dos magistrados Giovanni Falcone,
Francesca Morvillo e Paolo Borselino, dinamitados pela máfia (Cosa Nostra) em
maio e julho de 1992. Foi lá que a professora Alessandra Dino, titular da
cadeira de Sociologia Jurídica, uma das mais renomadas especialistas em crime
organizado, marcou nosso encontro. Entre seus inúmeros livros e artigos está Mulheres
da Máfia, sobre a participação feminina na organização. A seguir, ela fala
da situação atual do combate aos grupos mafiosos.
CartaCapital: Quais são os vínculos entre as máfias (Cosa Nostra,
Camorra, ‘Ndrangheta e Sacra Corona) e a política?
Alessandra Dino: As máfias têm sucesso porque instauram um
controle muito estreito e capilar no território onde agem. Esse controle de ruas,
bairros e estabelecimentos comerciais funciona como instrumento de manipulação
da vontade política e do voto. Tommaso Buscetta (extraditado do Brasil)
explicou que, no passado, era suficiente para influenciar o voto o fato de um capo
mafia de bairro dar uma volta pelas ruas com o candidato a lhe segurar o
braço, ou levá-lo a tomar café num bar. O importante é que todos os vissem
juntos. Não era necessário realizar comício ou fazer promessas à comunidade. A
simples presença do candidato na companhia de um uomo d’onore (homem de
honra, como é chamado um mafioso) era uma clara indicação aos eleitores.
Tivemos casos de uomini d’onore que se tornaram homens públicos e
ocuparam, sem intermediários, espaços institucionais, a influenciar na gestão
das despesas e priorização das obras públicas. Ainda
hoje as coisas não são diferentes do passado.
CC:
Dá para fazer um resumo do que foi o processo de Salvatore Cuffaro (ex-governador da
Sicília)? Como operaram a máfia e os mafiosos médicos?
AD: A investigação que envolve o ex-governador Cuffaro, entre
outros acusados, colocou luz numa profunda ligação entre a máfia, a política e
o mundo dos agentes sanitários. Um vínculo que se estabeleceu e se sustentou no
fato de as despesas sanitárias absorverem, na Sicília, o porcentual mais alto
de todos os financiamentos públicos. Os investigadores descobriram que, graças
à cumplicidade política, um grande complexo sanitário siciliano era controlado
por personagens muito próximos a expoentes mafiosos. Com isso, conseguia-se obter
financiamentos públicos até 200 vezes mais elevados do que o estimado. Isso
acarretava um grande dano ao contribuinte siciliano e punia os postos
sanitários públicos, que ficavam em enorme dificuldade econômica, por falta de
verba. Por outro lado, a investigação demonstrou que alguns expoentes mafiosos
controlavam os concursos públicos para a área sanitária. Por exemplo, quem
quisesse ocupar postos importantes e, pelos cargos arranjados, ser considerado
como grande cirurgião ou importante médico-chefe, tinha de receber a aprovação
do capo mafia. Revelou-se, por fim, o envolvimento de policiais. Eles traíam o
seu compromisso institucional ao repassar dados sigilosos da investigação e
antecipar diligências a pessoas ligadas à Cosa Nostra.
CC: Certa vez, um magistrado me contou que a Cosa Nostra é cada vez
mais dependente das concorrências e das obras públicas e do seu poder de se
infiltrar no setor público, para, parasitariamente, desfrutar de vantagens. A
senhora concorda?
AD: A presença da Cosa Nostra na construção civil, nos
setores das empreiteiras de obras públicas, é um fato que se repete no tempo e,
também, a conseqüência dos vínculos existentes com o mundo da política e das
instituições. Mas, além das obras públicas e das extorsões, a Cosa Nostra é
ativa, ainda hoje, no tráfico de drogas ilícitas, de seres humanos, de lixo e
no setor de jogos eletrônicos de azar. Importantes investimentos mafiosos foram
destinados à especulação imobiliária nos países do Leste Europeu e nos países
africanos, onde vivem importantes mafiosos foragidos da Justiça.
CC: A omertà, lei do silêncio ou a “solidariedade pelo medo”, como
disse o escritor Leonardo Sciascia, ainda existe?
AD:
Prefiro definir que coisa é, antes de dizer se existe. Nunca acreditei em
prejulgamento de ordem cultural, que, além de tudo, já se demonstrou
historicamente infundado, de haver uma forte ligação entre a cultura siciliana
e a máfia. Não acredito na omertà como sendo algo imanente,
intrínseco, de um povo ou de um grupo de indivíduos. Acredito que o poder de
intimidação da máfia tenha condicionado e ainda continua, em parte, a
condicionar a vida cotidiana e as escolhas dos cidadãos que moram em
territórios onde a Cosa Nostra exerce o seu poder. Isso tudo a impedir um pleno
e completo desenvolvimento das regras democráticas e dos valores da
cidadania.
CC: Quais as diferenças entre a Cosa Nostra, a Camorra, a ‘Ndrangheta e
a Sacra Corona Unità?
AD: Entre as organizações mafiosas italianas, ditas
tradicionais, estão seguramente as mencionadas na pergunta, todas elas
capilares e enraizadas num território e com uma presença que resiste no tempo.
A Sacra Corona Unità, como organização criminosa autônoma, nasceu recentemente,
em maio de 1983, como mostra um documento apreendido no presídio na posse de
Giuseppe Rogoli, seu fundador. Cada uma dessas organizações pode ser
distinguida por algumas características específicas. Em primeiro lugar, pelo
modelo organizativo adotado. Depois, pelo tipo de ilicitudes e tráfico a que se
dedica, pela capacidade de controle do território e, por último, pelas relações
que mantém com a política. Não faltam os acordos entre elas e a fixação de
momentos apropriados às aproximações e contatos. Muitas atividades criminosas
ocorrem em face da correlação de interesses de muitas máfias, seja em razão do
vulto econômico da empreitada, seja com relação aos homicídios e às
chacinas.
CC: No que consiste o chamado “método mafioso”?
AD: Falar em método mafioso significa tentar
individualizar os traços distintivos que qualificam um sodalício (associação
criminal) como mafioso, isto pela especificidade de cada um deles. Os elementos
a distinguir as organizações mafiosas tradicionais presentes em território
italiano são, seguramente, a capacidade de influenciar na política e o de se radicar
no território, isso mediante a intimidação e o uso da violência. Deve-se
acrescentar a capacidade de criação de uma network de relações com as
estruturas institucionais e com os centros de poder, de “normatizar” as
práticas violentas, construindo ao redor da organização criminal conivências,
cumplicidades, consenso e, acrescento, a sua ação, cada vez maior, nos
circuitos da economia legal.
CC: Que papel têm as mulheres nisso
tudo?
AD: Estudar o papel das
figuras femininas dentro das organizações mafiosas sempre me interessou muito.
Talvez porque, até a metade dos anos 90, com raras exceções, ninguém se ocupava
em compreender quais funções desenvolviam as mulheres na máfia. Por exemplo, se
aceitavam acriticamente, sob a ótica do uomini d’onore, que as
mulheres estavam excluídas do sodalício criminal e relegadas ao papel de
esposas e mães, que não sabiam de nada e ignoravam tudo o que sucedia. Tão logo
iniciei a coleta de material e recolhi testemunhos, me dei conta de quanto
aquela colocação era inadequada do ponto de vista científico. Quanto, além
disso, a organização mafiosa se beneficiava operativamente em poder contar com
o auxílio de mulheres. Sobre elas as autoridades judiciárias não tinham a
atenção despertada nem realizavam investigações. Dos estudos feitos, emergiu
que, na realidade, as mulheres sempre tiveram um importante papel, seja na
família, seja no processo educativo, seja nos negócios financeiros: foram
gestoras de bens e tiveram a tarefa de exigir o pagamento do pizzo
(taxa de proteção exigida pela máfia). Sempre tiveram papel importante,
especialmente no âmbito social, embora a organização mafiosa tenha como imagem
a de ser uma associação exclusivamente machista.